sexta-feira, 21 de outubro de 2011

MULHER: realidade e possibilidades.


“Eu digo mais, não há ciência, nem cargo público no Estado, que as mulheres não sejam naturalmente próprias a preenchê-los tanto como os homens”. (Nísia Floresta no ano de 1832)

A frase em destaque é de autoria de uma brasileira nascida em 12 de outubro de 1810, uma mulher que vivia a frente de seu tempo. Em uma época onde mulher não possuía voz ativa ela já escrevia sobre a escravidão, o sofrimento do índio e também as belezas de seu país, mas, acima de tudo, sobre a opressão vivida pela mulher diante do sexo oposto. Fundadora de um colégio revolucionário para meninas, no Rio de Janeiro, onde lutava por uma educação socialmente igualitária, onde elas pudessem buscar o conhecimento e não apenas técnicas para se tornarem boas donas de casa. Reconhecida na Europa, estabeleceu amizade com diversos intelectuais de sua época. Faleceu em 1885 na França, aos 75 anos, tendo deixado 15 obras publicadas, além de vários artigos publicados no Brasil. Foi uma mulher diferenciada, deixou há quase dois séculos um excelente exemplo a ser seguido. Triste o fato de hoje poucas mulheres conhecerem a historia dessa heroína do sexo feminino, uma mulher, brasileira, que merece o mesmo destaque que é dado a Rosa Luxemburgo, Simone de Beauvoir, Judith Butler, Virginia Woolf, entre outras.

Seguindo o caminho inverso das mulheres que alcançaram destaque por méritos próprios, por sua capacidade intelectual e seu engajamento, nos deparamos com um quadro revoltante: a alienação que se apodera de grande porcentagem das mulheres brasileiras.

Essa observação rendeu-me o titulo de machista, coisa essa que não condiz com a realidade. Ao contrario de machista, sou uma defensora da igualdade entre os sexos. Mas tenho de admitir que diante de nosso contexto, tenho dado certa preferência ao diálogo com homens, onde é possível discutir temas variados (política, atualidades, cultura, temas que envolvem o ser humano e seu meio), enquanto, em relação às mulheres, me vejo diante de um quadro onde elas, em sua maioria, encontram-se limitadas ao mundo da moda, novela e eventos sociais onde brindam a banalidade.

Concordo que a mulher deve procurar estar bonita, arrumada, perfumada, antenada com a moda, mas isso é apenas um detalhe no universo de informações que devem buscar e interagir. Sonho ansiosamente com o dia em que a mulher aperceba possuir em potência a mesma capacidade intelectual que o homem, e isso não significa masculinizar-se, a mulher jamais deve perder a delicadeza, tendo em vista que isso faz parte de sua essência, mas é necessário que busque se situar no mundo real “que saia da prisão florida”, que pare de usar a velha desculpa da falta de tempo por trabalharem fora e em casa, os filhos, o cansaço...

Imagino que seria um bom começo para uma eventual mudança desligar a televisão no horário da novela (alienadora) e dedicar esses momentos a leitura de um bom livro, ler ou assistir um jornal ou demais programas de boa qualidade, pois para conquistas e avanços em rumo a uma igualdade intelectual e sexual é necessário darmos o primeiro passo e nos mantermos determinadas nesse intuito. Não quero com isso ofender a quem optou pela submissão.

A mudança só ocorrerá quando a mulher se der conta de sua atual condição e buscar de forma mais consciente e crítica sua emancipação.

Ana Cláudia.
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Imagem: Pensadora. Escultura de Arminda Lopes

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Incoerência


Sabe-se que o Brasil passou por um forte regime opressor liderado por governos militares, sendo que o período mais recente desse regime durou de 1964 a 1985. Durante essa época alguns cidadãos voltaram-se contra o sistema estabelecido com levantes armados, manifestações culturais tidas como subversivas, nas artes plásticas, na música e na literatura. Nesse momento histórico, a música brasileira manifestava-se como o grito de um povo reprimido com o grande “CALE-SE”(1) imposto pela força militar.

Analisando o apego da elite brasileira com a MPB (Música Popular Brasileira), percebe-se que a grande maioria das pessoas de classe social mais abastada no Brasil, aprecia esse gênero musical. O interessante nessa história é que nessa categoria, como base, estão cantores célebres como, e, por exemplo, Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil e Caetano Veloso, personagens que durante o regime ditatorial (de direita) em nosso país optaram por se oporem a citado regime, e com isso, foram perseguidos e convidados a se retirarem do Brasil. Mas, pasmem, hoje esses mesmos cantores, outrora perseguidos e punidos pelo regime (mais uma vez reforçando, de direita), são consumidos por uma elite também direitista, a mesma direita que na década de 70 expulsou os seus, hoje – ídolos. Diante desse quadro, evidencia-se a incoerência que permeia a ambiência elitista no Brasil. Afrontando esse quadro indagamos:

como é possível, uma classe social, adotar um sistema que fora rejeitado e combatido pelos ícones e ídolos que essa própria classe elegeu?

A que conclusão podemos chegar? - Ou a elite brasileira não entendeu nada, ou é hipócrita por demais, ou não passa de um bando de burros desorientados, ou quem sabe, todos os tratamentos dispensados lhe caiam bem.

Ana Cláudia


Apesar De Você
(Chico Buarque – 1970)
Intérprete: Chico Buarque

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão.
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão.
Apesar de você
amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.
Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!

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(1) Alusão a música Cálice de Chico Buarque

domingo, 24 de janeiro de 2010

Crise de inversão dos valores.


No desenrolar da história, a civilização humana testemunhou e tem testemunhado várias transformações, transformações essas que remodelaram a sua forma de ser, sua estrutura, e, por conseguinte, a maneira de ser de seus partícipes. Ao longo dos anos, a vivência social e os modelos estabelecidos tem sido transitórios. A civilização, em sua história, tem se caracterizado como reino do efêmero, vivendo historicamente processos de continuidade e descontinuidade.
No último século um fenômeno social se intensificou sendo percebido com muita clareza. O fenômeno no qual nos referimos é o problema da inversão de valores; problema esse que se fortaleceu ainda mais no atual século, tornando a sua visibilidade, e o problema por ele suscitado, ainda mais nítido.
Que seria então essa inversão de valores? Quais os agravos que ela engendra?
Se socialmente para o bem da ordem social, estabeleceu-se parâmetros para a promoção e estabilização da mesma, com o advento da inversão de valores, estruturas formatadas para a efetivação da harmonia social se rompem, gerando um caos social. Uma dessas estruturas basilares abaladas com esse novo fenômeno, por exemplo, é a família.
É cada vez mais raro encontrar em nosso meio cônjuges que verdadeiramente amem seus parceiros, filhos que respeitem seus pais, amizades embasadas em respeito, confiança e fraternidade, entre tantos outros exemplos. Se apegando a estes três exemplos citados, perceberemos nitidamente que a fonte de tal deformidade encontra-se na ausência de parâmetros. O ser humano ao destruir os parâmetros, estabelece um vazio moral, dando espaço para todo tipo de deformações sociais, fazendo que até mesmo o amor, outrora tão exaltado, passe a categoria de “corpo estranho”.
O amor em nossa sociedade vem perdendo espaço para o individualismo egocêntrico. As relações pessoais atuais têm por base o lucro e a vantagem, assim sendo, se uma pessoa não tem o que oferecer de lucrativo, essa não é considerada interessante para uma relação. O fenômeno é percebido quase que em caráter geral. Facilmente percebe-se essa realidade na política onde tudo é movido pelo capital, na família onde a valorização maior e o destaque são dados ao mais próspero, na religião, a qual engolida pelas nomenclaturas denominacionais, coloca a instituição em primeiro plano, em detrimento ao necessitado.
Percebe-se o vigor da crise de inversão de valores, principalmente no âmbito familiar e religioso, pelo simples fato de a família e a religião em uma sociedade, naturalmente serem as bases da resistência do amor. Se, no que seria a base do amor na ambiência social, a primazia do lucro passa a gerenciar suas motivações, logo a sociedade perde o mais importante foco de resistência contra a degradação dos valores, dando livre acesso para a reafirmação desse novo modelo social.
Diante deste quadro, faz-se necessário uma tomada de atitude, orientada por uma também atitude reflexiva, com o fim de encontrar meios para reverter a situação direcionando a sociedade para uma vivência mais humana, onde as pessoas possam ser percebidas pelo que são levando-se em conta a totalidade de seu ser real.
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"É preciso de início testemunhar nossa ruptura com a desordem estabelecida. Já é alguma coisa tomar consciência da desordem. Mas a tomada de consciência que não leva a tomada de posição, a uma transformação de vida e não apenas de maneira de pensar, será apenas uma nova traição do espiritualismo, na linha de todas as traições passadas. É preciso pois, definir uma primeira série de desordarizações e de engajamentos, a que chamamos ação de testemunho e ruptura. Esta ação implica em primeiro lugar na denúncia e na condenação pública, por todos os meios ao nosso alcance, da desordem combatida".(Emmanuel Mounier(1).
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Ana Claudia.
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(1) DOMENACH, Jean Marie – LACROIX, Jean – GUISSARD, Lucien – CHAIGNE, Hervé – COUSSO, R – TAP, Pierre – NGANGO, Georges – PELISSIER, Lucien. Presença de Mounier. São Paulo: Duas Cidades, 1969.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Supremacia da não-originalidade.


Numa rápida sondagem no comportamento das pessoas envolvidas na atual civilização humana, sem muito esforço, perceberemos a quase que unívoca cultura da despersonalização do indivíduo. As sociedades hodiernas são estruturadas no que podemos chamar "cultura de massa". Nesse ambiente, tudo, ou quase tudo que se refere a senso crítico, estilo pessoal, modo e peculiaridades individuais são desprezadas, em valorização a uniformidade cultural. Despreza-se a pessoalidade e exalta-se o coletivismo.
Recentemente tive a oportunidade de observar um pouco mais de perto os bastidores do mundo da moda, ou seja, uma de suas incubadoras, onde mulheres (clientes) que, sem muita noção de moda e sem estilo algum, apegam-se cegamente as orientações e dicas de seus Personal Stylist (neste caso as vendedoras), como se essas fossem as "deusas do bom gosto" incapazes de cometerem falhas em suas elaborações estéticas. Mas, tratando-se de moda, essa historia é muito antiga. Sempre que vemos alguém no topo, podemos ter certeza que aquele estilo (roupas, modo de se expressar, de se sentar, andar, etc.), não é de fato seu, foi adquirido ou indicado por um entendedor do assunto - isso recorda a infância, quando brincávamos de boneca, e vestíamos aquela, como bem entendíamos - que, como tal, não raciocinava, e, por conseguinte, não tinha o poder de julgar.
Hoje nos deparamos diariamente com mulheres bonecas, que nas mãos da ditadura da moda aceitam tudo o que é imposto sem nada questionar, deixaram de raciocinar, pensar por si, se enquadrando no grande e crescente grupo da moda corrente.
O destaque direcionado ao problema da submissão estética do mundo da moda, não finda ou não encerra o debate. Podemos entendê-lo como a ponta do iceberg, ou seja, como um problema muito mais profundo e de maiores implicações. O problema que ele acentua é o problema da despessoalização, da nulidade individual e da rejeição de si próprio, levando essa problemática para outra dimensão.
Quem nos garante que uma pessoa acostumada com a subserviência estética, agirá de outra forma nas demais questões da existência?
Quem garante que nas demais questões da vida, ela usará sua liberdade que, como defende Jean-Paul Sartre, nos foi imposta?
"O homem está condenado a ser livre". ( Jean-Paul Sartre)

Ana Cláudia.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Pensamento

Marx Horkheimer e Theodor Adorno

Crer que a verdade de uma teoria é a mesma coisa que sua fecundidade é um erro. Muitas pessoas parecem, no entanto, admitir o contrário disso. Elas acham que a teoria tem tão pouca necessidade de encontrar aplicação no pensamento, que ela deveria antes dispensá-lo pura e simplesmente. Elas interpretam toda declaração equivocadamente no sentido de uma definitiva profissão de fé, imperativo ou tabu. Elas querem submeter-se à idéia como se fora deus, ou atacá-la como se fora um ídolo. O que lhes falta, em face dela, é a liberdade. Mas é próprio da verdade o fato de que participamos dela enquanto sujeitos ativos. Uma pessoa pode ouvir frases que são em si mesmas verdadeiras, mas só perceberá sua verdade na medida em que está pensando e continua a pensar, ao ouvi-las. Hoje em dia, esse fetichismo exprime-se sob uma forma drástica. Pendem-se prestações de contas pelo pensamento expresso, como se ele fosse a própria práxis. Justamente por isso toda palavra é intolerável: não apenas a palavra que pretende atingir o poder, mas também a palavra que se move tateando, experimentando, jogando com a possibilidade do erro. Mas: não estar pronto e acabado e saber que não está é o traço característico daquele pensamento e precisamente daquele pensamento com o qual vale a pena morrer. A proposição segundo a qual a verdade é o todo revela-se idêntica a proposição contraria, segundo a qual ela só existe em cada caso como parte. Dentre as desculpas que os intelectuais encontraram para os carrascos – e, na última década, eles não ficaram de braços cruzados com relação a isso – a mais deplorável é a desculpa de que o pensamento da vitima, responsável por seu assassinato, fora um erro.
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HORKHEIMER, Marx, ADORNO,Theodor W. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1985. 2 ed.

Observação:

Em nosso cotidiano somos envolvidos por vários problemas, várias questões, tanto de ordem prática quanto de ordem teórica que envolvem o nosso dia-a-dia. Nesse emaranhado de situações, vemos erguerem-se duas tendências que se afirmam como definitiva e coerente; são posições excludentes, cada qual, se posicionando como medida mais exata e lógica. Essas posições extremistas estão no âmbito da teoria e da ação, que por adotarem uma posição de distanciamento inauguram uma série de problemas. A teoria sem a prática é um delírio, e ação sem teoria é puro ativismo. A Escola de Frankfurt na pessoa de Horkheimer e Adorno se atendo ao problema da teoria sem a práxis destacam-nos as seguintes questões:
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1° A teoria não é totalizadora do real – e as pessoas parecem crer ao contrário
2º As pessoas abraçam a teoria sem a preocupação de sua aplicação – abraçam a teoria pela teoria.
3º A verdade de uma teoria só se efetiva enquanto vivida.
4º A teoria nunca está pronta – é nos contornos da práxis que ela se aperfeiçoa.
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A afirmação dos representantes de Frankfurt pode ser percebida claramente nos círculos acadêmicos e nos arraiais religiosos. Nesses meios vemos o império da teoria sobrepujar a necessidade da ação ou da vivência. Em cada teoria defendida com afinco, em cada dogma teorizado, percebemos a realidade denunciada por Horkheimer e Adorno. Legitimando a denuncia dos filósofos destacados, os meios acadêmicos e religiosos – parecem estimular o exagerado apego a idéias (pensamento teórico) – mesmo que essas não se adéquem a situações reais. Esses ambientes geram pessoas, a modo burguês, que não se preocupam com os problemas reais da existência, se apegando a formas e aparências. Por conseguinte, não contribuem efetivamente com a sociedade a qual pertencem, pelo simples fato de não serem estimulados a criar vínculos e compromissos práticos, em outras palavras, não são incitados a vivenciarem a teoria abraçada. Reafirmando a posição de Horkheimer e Adorno, apenas abraçam a teoria pela teoria, a fim de satisfazer vaidades pessoais ou acalentar uma eventual necessidade de se situar em um meio ideológico. O grande equívoco dessas posições se dá no fato de que os que a vivenciam ignoram a inapropriação das teorias no plano da ação. Muitas teorias são impraticáveis quando confrontadas com o real. A maioria dos amantes das teorias não se preocupam com sua eficácia e não as acolhem como respostas a problemas reais. Ignoram que enquanto não encarnada, são apenas teorias, elas não existem na realidade, são apenas sistemas de idéias e só provarão sua eficiência ou sua ineficácia a partir da tentativa de pô-las em prática.
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Ana Claudia

sábado, 11 de julho de 2009

Emancipadas para uma nova prisão.

Desde tempos remotos a história narra o domínio e a consequente opressão do sexo masculino sobre a mulher. A mulher tem lutado, principalmente nos últimos séculos contra essa imposição histórica tentando se livrar da opressão e subjugação quer em caráter profissional, intelectual ou político.
Com a Revolução Francesa o papel da mulher passou a ter mais significância na história da sociedade, surgindo daí as primeiras reivindicações em prol de seus direitos, e entre eles a sua busca principal, ou seja, a igualdade entre os sexos. Mas adiante com a Revolução Industrial a mulher conseguiu inserir-se no mercado de trabalho como “mão de obra barata”, trabalhando aproximadamente 17 horas ao dia e recebendo como salário cerca de 60% a menos que os homens. Depois de muitas lutas e manifestações principalmente nos EUA e na Inglaterra, as mulheres conquistaram melhorias trabalhistas, sendo isso um grande avanço em caráter histórico. Atualmente em nosso país (Brasil), cerca de 30 milhões de mulheres estão inseridas no mercado de trabalho, representando 41% da população economicamente ativa. No setor educacional, o desenvolvimento da mulher conquistou mais expressividade que o dos homens, com aproximadamente 57% de estudantes femininas nos bancos do 2º grau e nos cursos superiores.
Foram muitas as conquistas alcançadas pelas mulheres em sua luta pela emancipação profissional, intelectual e política, conquistas essas advindas de intensas batalhas manifestas em comícios, greves, passeatas e idéias impressas em livros, folhetos, etc.
A despeito de todas as suas conquistas históricas, as mulheres contemporâneas, mais livres do que as de outrora, desprezam, numa marcha inversa, as conquistas de suas antecessoras. É comum em nossos dias a total despreocupação feminina de seu atual estado, de sua vocação e de sua importância efetiva na sociedade. Estranhamente a mulher hodierna em suas atitudes práticas caminha de volta a sua antiga condição de submissão e dependência. Evocando sua emancipação a mulher equivocadamente tem se colocado como produto da cultura reinante. Esse equívoco pode ser observado de forma clara em algumas atitudes:

Defendendo sua liberdade a mulher se apequena como produto do desejo masculino (vulgarização sexual).
Rejeitando sua fragilidade através de atitudes e escolhas, rejeita sua própria condição de mulher (masculinização).
Vivenciando sua nova condição trabalhista e social a mulher se aprisiona a ditadura do mercado, onde passa da condição de ser humano a ser de consumo (manipulação da indústria da beleza).
Reafirmando sua automonia financeira a mulher vende seu tempo, tornando-se escrava do trabalho.
Celebrando sua emancipação, a mulher, no intenso desejo de vivenciar sua liberdade se aliena da realidade deixando de se preocupar com os problemas de sua época, torna-se dependente da interpretação masculina dos fatos que a circunda, ao invés de buscá-la através de seus próprios esforços intelectuais.

Sabendo que não existe libertação sem a consciência de se estar aprisionada, cremos que a real emancipação feminina só se dará no momento em que a mulher colocar em pauta o problema da liberdade –, a partir do momento em que colocar em questão o que é a liberdade. Sem se perceber intrincada em um problema, jamais se buscará a solução do mesmo. Para conquistar a liberdade é necessário primeiramente entendê-la e depois buscar os meios para mantê-la. Seguindo essa linha de raciocínio, a mulher contemporânea só será efetivamente emancipada quando sair da alienação que vivencia e agir a favor do alcance do que necessita, pois, como já foi exposto, a efetivação da liberdade esta ligada ao desejo de ser livre e a constante manutenção da liberdade atualizada.

“Os homens não podendo negar que nós somos criaturas racionais, querem provar-nos a sua opinião absurda, e os tratamentos injustos que recebemos, por uma condescendência cega às suas vontades; eu espero, entretanto, que as mulheres de bom senso se empenharão em fazer conhecer que elas merecem um melhor tratamento e não se submeterão servilmente a um orgulho tão mal fundado”. (Nísia Floresta)
Ana Cláudia.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O profundo no simples

“Certa vez um grupo de pessoas estranhas aproximou-se de Heráclito. Desejavam visitá-lo. Ao se aproximarem, viram-no aquecendo-se junto ao forno. Detiveram-se surpresos e hesitantes pelo que viam e sobretudo pelo que ouviam. Pois o filósofo, para encorajá-los a entrar, lhes dizia: - Entrem, pois também aqui há deuses presentes.
Essa estória, relatada por Aristóteles, assim a comentava Heidegger, em 1946: “ Com o que vê logo à chegada, o grupo de visitantes desconhecidos fica frustrado e desconcertado na curiosidade que os levara ao pensador. Acredita ter de encontrá-lo em circunstâncias que, ao contrário do modo de viver comum dos homens, fossem excepcionais, raras e, por isso mesmo, emocionantes. Trazem a esperança de descobrir coisas que, ao menos por certo tempo, sirvam de assunto para uma conversa animada. Esperam surpreender, talvez, o pensador justamente no momento em que, mergulhado em profundas reflexões, ele pensa. Querem viver esse momento, mas não, de certo, para serem atingidos pelo pensamento e sim, apenas, para poderem dizer que já viram e ouviram alguém de quem sempre de novo se diz ser um pensador.
Ao contrário, os visitantes curiosos encontram Heráclito junto ao forno. Um lugar banal e muito comum. Todavia, é nele que se assa pão. Mas Heráclito não está ocupado em assar pão. Ele se está aquecendo. Com o que ele demonstra – e ademais num lugar banal – toda a indigência de sua vida. A visão de um pensador com frio oferece muito pouca coisa de interessante. Os curiosos perdem logo a vontade de entrar. Para quê? Pois esse fato corriqueiro e nada excitante de alguém estar com frio e achegar-se a um forno, qualquer um pode presenciar, quando quiser, em casa. Para isso, não é necessário visitar um pensador. Os visitantes se aprestam a retirar-se. Heráclito lê em suas fisionomias a curiosidade frustrada. Sabe que, como em toda massa, a simples ausência de uma sensação esperada é suficiente para fazer voltar os que acabam de chegar. Por isso infunde-lhes coragem, convidando-os a entrar com essas palavras: - Também aqui os deuses estão presentes.” (...).
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VANNUCCHI, Aldo. Filosofia e ciências humanas. São Paulo: Edições Loyola, 1977.


Observação:

Na ilustração retratada por Aristóteles, observamos que os visitantes do filósofo de Éfeso menosprezaram a sua condição de pensador ao vê-lo envolvido em uma ação quotidiana. A cena fez com que os tais imediatamente se desinteressem pela figura do pensador do “devir”, pois buscavam a explicitação de suas “idéias” desassociada da vida real, imaginavam o pensador distante do mundo dos homens.
Observamos que no contexto que estamos inseridos essa cena se repete, apesar dos novos contornos, vemos o comum desinteresse e desprezo da ala dos pseudo-intelectuais e de seus admiradores pelo pensamento concreto. A plasticidade das idéias e as divagações mirabolantes, sem nenhum compromisso com o real, é mais valorizada do que o pensamento efetivo, a exemplo do retrato imprimido por Aristóteles. O desinteresse dos visitantes que flagraram Heráclito envolvido em uma ação quotidiana dos que dantes idealizavam o pensador distante do mundo dos homens é percebido em nossos dias onde o falar e o defender é mais valorizado do que o fazer ou o pensar para realmente entender. Nesta ambiência vale mais as frases de efeito, nomenclaturas pomposas e muitas vezes sem nenhuma significação por parte de quem as expressa, e a vaidosa adoção do pensamento alheio ou a idolatria a construtores de idéias, tudo isso é mais valorizado que o pensamento compromissado que não diminui a importância do concreto em detrimento a profundidade do metafísico
Somos envolvidos diariamente pela simplicidade das ações cotidianas. Desde o pensar em resolver questões de ordem práticas como o já envolvimento nelas, pressupõem a necessidade de evidenciarmos a simplicidade da vida encarnada, pois como Sartre poderíamos crer que “a existência precede a essência” – ou ainda se apegando a uma metafísica e acreditando em uma essência anterior a experiência, como Aristóteles, podemos asseverar que é na concretude da existência que as potencialidade se atualizam, ou seja é no fato comum, é na experiência comum que as coisas se dão.
Tendo em vista essa realidade, cremos que é de fundamental importância a valorização e o interesse pelo simples, pois é como diria Heráclito, esse ambiente é povoado pelos deuses, ou seja, pelas idéias fecundas.

Ana Cláudia.

domingo, 22 de março de 2009

Outono.

Prefiro o Outono. Acho-o mais bonito, mais sábio. Mais tranqüilo. A Primavera é linda, cheia de cores, cios e odores. Mas não me comove. Não encontro nela lugar para a saudade. Por isso lhe falta aquela gota de tristeza, que mora em toda obra de arte. É que ela existe na paradisíaca inconsciência do fim... O Verão é diferente. Excita meu lado de fora e me transforma em céu, sol e mar. Misturo-me com seu universo luminoso, quente e suarento, cheio de cachoeiras e limonadas geladas. Tudo me convida a não pensar. A só rir, gozar, usufruir. Como diz Fernando Pessoa, pensamento é doença dos olhos. Ao que eu acrescentaria: do corpo inteiro. A gente pensa quando o dente dói, quando o sapato aperta, quando a azia queima, quando o coração tropeça. O corpo saudável é transparente. Sai de si e fica todo no mar, no céu, no sol. É a doença que o torna opaco. O verão faz este milagre comigo: esvazia-se de mim, e eu me perco (eroticamente) nos seus braços... Mas o outono me chama de volta. Devolve-me à minha verdade. Sinto então a dor bonita da nostalgia, pedaço de mim, de que não posso me esquecer. Primeiro é aquele friozinho pelas manhãs e pelas tardes. O Verão já se foi. Fica, dentro, o sentimento de que tudo é despedida. O Outono tem memória. Coisa de que se precisa para se ter saudade. E saudade, como nos ensinou Riobaldo, é uma espécie de velhice. Depois são as cores. O céu azul profundo, as árvores e grama de um outro verde, misturado com o dourado dos raios de sol inclinados. Tudo fica mais pungente ao cair da tarde, pelo frio, pelo crepúsculo, o que revela o parentesco entre o Outono e o entardecer. O Outono é o ano que entardece. E as tarde, como se sabe, são aquele tempo do dia quando tristeza e beleza se misturam. E o mundo de dentro reverbera com o mundo de fora. Jorge Luís Borges estava certo: a gente vai andando, solidamente, e de repente vê um pôr de sol, e está perdido de novo. É que o pôr de sol é mais que pôr de sol. É “este poente precoce e azulando-se o sol entre farrapos fino de nuvens, enquanto a lua já é vista mística, no outro lado” (Pessoa); “Uma última cor penetrando nas árvores até os pássaros, e este cantar de galos e rolas, muito longe” (Cecília). Quando tudo se aquieta, e o tempo diz sua passagem nas cores que se sucedem. O rosa, o vermelho, o marrom, o roxo, o negro... Sabe-se então que o fim chegou. Pôr de sol é metáfora poética, e se o sentimos assim é porque sua beleza triste mora em nosso próprio corpo. Somos seres crepusculares. É por isso que esta é a hora do terror noturno, quando as pessoas, lembrando-se do seu parentesco com as aves, voltam ansiosas para casa, e acendem as luzes que não se apagam. Gosto de ver os balões que sobem... Sei que são proibidos. Mas são belos. Não ficariam bonitos nem pela manhã e nem ao meio-dia. São entes do crepúsculo. É preciso que a luz já esteja indo para que sua beleza (e riso) apareçam, ao entardecer. Cada balão não será isto? Um grande riso ao cair da noite...
Há os prazeres da Primavera.
Há os prazeres do Verão.
Mas há uma alegria que só surge no Outono.
Quem, espantado pelo terror noturno, se refugia em casa, não pode ver nem a beleza do crepúsculo e nem o riso dos balões. Estes são prazeres que se dão somente àqueles que suportam o frio e as cores que mergulham no escuro. O que me faz lembrar aquela deliciosa estória zen: “Um homem ia pela floresta quando ouviu um rugido terrível. Era um leão. Ele teve muito medo e se pôs a correr. Mas a floresta era densa e o sol já estava se pondo. Não viu por onde ia e caiu num precipício. No desespero agarrou-se a um galho que se projetava sobre o abismo e lá ficou. Foi quando, olhando para a parede do precipício, viu uma pequena planta que ali crescia. Era um pé de morangos. Nela havia um morango vermelho. Estendeu o seu braço e o colheu. E comeu.” Aqui termina a estória.
Há morangos que se comem sobre o abismo.
Balões que só sobem ao crepúsculo.
E belezas que só existem no Outono.
É preciso beber a taça, até o fim.
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Rubem Alves.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Breve observação sobre o vazio existencial.


O vazio existencial (o grande vácuo) encontra-se presente na vida de todo ser humano, as vezes em maior outras em menor intensidade. O compreendemos quando olhamos a vida e percebemos o grande nada que nos cerca, sua "absurdidade". Subsequente a isso vem a nossa mente a angustiosa indagação: O que fiz de minha vida? Refletimos em busca de uma resposta que por fim nos vem de forma direta e taxativa: "nada"!
Proveniente dessa resposta manifesta-se em nosso intimo um sentimento de revolta em relação ao "nada" que nos envolve. A partir do momento que tomamos consciência de nossa revolta, passamos a buscar soluções cabíveis que poderão aplacar a causa da mesma, fazendo uso, na maioria das vezes, da interação social.
Essa inversão do "nada" parece-nos até uma vitória sobre o mesmo, mas na maioria dos casos trata-se apenas de meia vitória, pois grande parte dos indivíduos que se aventuram na busca de respostas que aparentemente poderiam solucionar o problema do vazio existencial acabam por fim deparando-se novamente com o "nada". Por conseguinte, permanecem vazios em seu intimo com questões que dificilmente serão respondidas.
Conhecendo um pouco a história humana, chegamos a constatação de que desde o começo da civilização, o homem procura responder as indagações a respeito da sua existência e do vazio nela contido. Por mais que tenham buscado através dos séculos solucionar a grande questão, ela permanece em aberto até o presente momento, sem nenhum indicativo de solução.
O filósofo franco-argelino Albert Camus, refletindo sobre este intricado problema, longe de chegar a uma conclusão definitiva, defende a idéia de que admitir o absurdo é a única maneira de se situar no mundo de forma adequada.
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"(...) Não sei se este mundo tem um sentido que me ultrapassa; mas sei que não conheço esse sentido e que me é impossível "por enquanto" conhecê-lo; o absurdo é por enquanto, o único laço que me une a esse mundo." (1) Albert Camus
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Ana Cláudia.
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(1) MOUNIER, Emmanuel. A esperança dos desesperados. Malraux, Camus, Sartre, Bernanos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972.

Relação do "eu" com o "outro".


" (...)Sabe, ouvi falar de um homem cujo o amigo tinha sido preso e que todas as noites se deitava no chão do seu quarto para não gozar de um conforto do qual havia sido privado aquele que ele amava. Quem, meu caro senhor, quem se deitará no chão por nós? Se eu mesmo seria capaz disso? Escute, gostaria de ser, sê-lo-ei. Sim, seremos todos capazes disto, um dia, e será a salvação. Mas não é fácil, porque a amizade é distraída ou, pelo menos, impotente. O que ela quer, não pode. Talvez, afinal, não queira bastante? Não amaremos talvez bastante a vida? Já reparou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam mais a boca cheia de terra! A homenagem vem, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez tivessem esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabe por que somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há obrigações. Deixam-nos livres, podemos dispor do nosso tempo, encaixar a homenagem entre o coquetel e uma doce amante: em resumo, nas horas vagas. Se nos impusessem algo, seria a memória, e nos temos a memória curta. Não, é o morto recente que nós amamos nos nossos amigos, o morto doloroso, a nossa emoção, enfim, nós mesmos!
Tinha, assim, um amigo que eu evitava sempre que podia. Irritava-me um pouco e, depois, tinha moral. Mas, na agonia, ele me reencontrou, fique descansado. Não falhei um só dia. Morreu satisfeito comigo, apertando-me as mãos. Uma mulher que me perseguia, mas em vão, teve o bom gosto de morrer jovem. Que espaço imediatamente no meu coração! E quando, ainda por cima, se trata de um suicídio! Senhor, que deliciosa confusão! O telefone funciona, o coração transborda, e as frases voluntariamente breves, mas carregadas de subentendidos, a dor controlada, e até mesmo, sim, um pouco de auto-acusação.
É assim o homem, caro senhor, com duas faces: não consegue amar sem se amar. "
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CAMUS, Albert. A Queda. Rio de janeiro: Record, 1956.

Observação:
Dificilmente aceitamos, senão como uma ação de auto-sacrifício, uma atitude que venha requerer de nós tempo e atenção para com o outro, algo que possa vir a tirar-nos de nosso cômodo quotidiano. Mas, tomando como atitude essa ação de "sacrifício", tornamos nossa imagem mais bela e aceitável em meio a sociedade. Como nos parece incômodo, visitar aquele não tão amigo, moribundo em um hospital ou, ceder nosso lugar numa fila a uma pessoa mais necessitada, entre tantos outros inconvenientes, mas, como soa deliciosamente bem aos nossos ouvidos o parecer de outros indivíduos diante de nossa ação de sacrifício: “Nossa, que pessoa altruísta!” ou “Que atitude caridosa!" entre muitas outras observações geradas devido a essa atitude tomada ou seja a atitude de um auto-sacríficio. Mas na maioria das vezes, ajudamos o outro por mera condescendência e vaidade. Assim como citado no texto de Camus, nesses momentos, quando nos é exigido uma doação maior de nossa pessoalidade para com o próximo, agimos, priorizando a nossa imagem, e não o bem estar alheio. Em primeiro lugar colocamos sempre o nosso “EU”, para só depois enxergarmos o outro.
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Ana Cláudia.

Semelhantes.


Desde muito nova comecei a observar as informações que estavam contidas e escondidas nas entrelinhas. Não digo apenas em caráter literário, mas na pura vivência, no quotidiano. Sempre busquei o cerne das pessoas com quem me relacionava. Tentava de uma forma simples, enxergar além da aparência do ser humano. E confesso, muitas vezes vislumbrei o grande brilho, outras tantas, devastação e, muitas vezes o nada. Com o passar dos anos, para minha maior precaução, criei uma técnica de avaliação das palavras, por constatar como real o dito vulgar “que as pessoas se entregam pela boca”. Não sou uma pessoa que tenha grandes expectativas, a vida me fixou ao chão. Por me aprofundar tanto na essência humana, tornei-me uma estranha, as vezes acho que não pertenço a este mundo, tão cheio de insensibilidade e máscaras, embora saiba que me é vital situar-me nele. Tudo isto me causa angústia por demais. Sinto-me como uma alienígena, vinda de um outro sistema solar, apenas de passagem pela Terra. Anseio voltar para casa. A maneira de Manuel Bandeira ou Dylan, quero a minha Pasárgada, quero as Highlands. Na maioria das vezes acho que me encontro fora do nosso tempo-espaço. Sou diferente daquelas pessoas que me cercam, e afirmo isto depois de longa e exaustiva avaliação. Muitas vezes me encontro cercada por pessoas, mas cada vez torna-se mais forte em mim a convicção de que estou só. Em meio a um turbilhão de vozes, não consigo entender o que me dizem, não falam a mesma língua que eu. Com isso, durante uma grande parcela de tempo em minha vida, desisti de buscar indivíduos semelhantes a mim (estranhos). Mas para minha não total frustração, descobri, através da observação, que existe dentro de cada um de nós, uma pequena fagulha do “belo”, e, cabe a nós torná-la chama ou estagná-la. Ela fica lá, escondida no côncavo mais profundo do nosso ser, e, exige muita prática e atenção para conseguirmos enxergá-la no “outro”. Mas quando isso se dá, conseguimos enxergar o ser no seu mais natural estado, e neste momento, no qual vislumbramos a essência humana percebemos que somos todos iguais.
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Ana Cláudia.

Sábia consciência.


Há uma procura muito intensa hoje em dia pelo atingimento de um lugar aparentemente desconhecido: a morada da sabedoria. O fastio provocado por um modo liberticida e materialista de existir, somado ao cansaço resultante da oferta incessante e inúmeras e ineficazes fórmulas prontas para o sucesso, leva à aspiração por algo misterioso e extremamente desejado. O sintoma mais evidente dessa ânsia está na profusão de medicinas, religiões, literaturas e rituais que anunciam um ponto de chegada que acalmará os espíritos e cessará a turbulência de mentes atormentadas pela busca de um sentido para a própria existência.
Parodiando o título de estupenda obra do escritor francês Marcel Proust, parece que agora é preciso irmos céleres “em busca do tempo perdido”. No entanto, o romancista mesmo, em À sombra das raparigas em flor, nos ensina que “a sabedoria não se transmite, é preciso que a gente mesmo a descubra depois de uma caminhada que ninguém pode fazer em nosso lugar, e que ninguém nos pode evitar, porque a sabedoria é uma maneira de ver as coisas”.
Sabedoria, uma maneira de ver as coisas! Claude Lévi-Strauss, antropólogo conterrâneo de Proust e, sem dúvida, o mais importante estudioso contemporâneo das culturas, escreveu em O cru e o cozido que “o sábio não é o homem que fornece as verdadeiras respostas; é o que formula as verdadeiras perguntas”.
É necessário fazer outras perguntas, ir atrás das indagações que produzem o novo saber, observar com outros olhares através da história pessoal e coletiva, evitando a empáfia daqueles e daquelas que supõem já estar de posse do conhecimento e da certeza. Tempos de arrogância estes nossos! Muitos cientistas se arvoram em detentores de exclusiva posse da verdade, vários governantes assumem posturas petulantes ao recusarem a existência de concepções divergentes, inúmeros especialistas insistem na rejeição aos fatos em nome das teorias, variados líderes religiosos impedem o afloramento da quebra da alienação. Está rareando entre os altamente escolarizados e economicamente beneficiados a imprescindível modéstia sincera, aquela que nos permite enxergar limites nos nossos saberes e poderes.
Por isso, é imprescindível revisitar um monge beneditino que há aproximadamente 1.300 anos viveu na Inglaterra: Beda, que, alem de ter sido santificado pela igreja do período, era chamado também de o Venerável. Tamanha foi a erudição e honestidade narrativa que sustentou ao escrever uma trajetória de seu país – Desde a ocupação romana até aqueles dias – que sua obra tornou-se referência para os estudos históricos medievais.
Um homem como ele, pleno de conhecimentos e admirado pela imensa capacidade intelectual, conseguiu não ser vítima da presunção que acomete a muitos nessa condição ou, até, longe dela; Beda nos legou (com validade indeterminada!) uma prescrição em forma de advertência, na qual diz que há três caminhos para a infelicidade (ou fracasso):
1) não ensinar o que se sabe;
2) não praticar o que se ensina;
3) não perguntar o que se ignora.
Uma tríade assim arremessa a idéia de sucesso para muito além do que muitos acreditam nos nossos modernos tempos; poderíamos dizer _ retomando pelo positivo as três advertências de Beda – que o sucesso está na generosidade mental (ensinar o que se sabe), na honestidade moral (praticar o que se ensina) e na humildade inteligente (perguntar o que se ignora). Nesse sentido, o ensinamento do monge está impregnado do que entendemos ser a sabedoria ou, mais ainda, a sapiência.
Mas, como bradava o sólido lema francês do ensaísta Montaigne – no século em que o Brasil era fundado – “que sais-je?” (que sei eu?)...
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CORTELLA, Mario Sergio. Não nascemos prontos. Rio de Janeiro: Vozes, 2006.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A educação atual de nossas crianças.


Na Coréia do Sul, algumas escolas oferecem a seus alunos 16 horas de aulas todos os dias. É isso mesmo, dezesseis horas, não é mentira! As crianças e os adolescentes acordam bem cedo e partem para esse grande desafio. Pela manhã, assistem às aulas tradicionais, como matemática e biologia. À tarde, depois do almoço na própria escola e de fazerem suas tarefas, geralmente em grandes quantidades, recebem ensinamentos nas disciplinas específicas escolhidas por eles mesmos, como matemática avançada, cálculo numérico ou programação de computadores, além de aulas como violino, piano, alemão, japonês, mandarim, escultura, pintura, oratória, política, culinária e muitas outras. Os educadores dizem que estão formando cidadãos capacitados para o projeto de crescimento do seu país e de consolidação de uma nação altamente tecnológica e competitiva.
Nos EUA, crianças superdotadas escolhem freqüentar aulas em escolas especiais, onde pode se fazer 5 ou 6 anos em apenas 2, em um ritmo fortíssimo e desgastante. Desse modo, sonham em chegar à universidade aos 14 anos, 15 na pior das hipóteses, e já vimos casos de universitários com menos que isso, com 10. Entrar nessas escolas especiais não é tarefa simples. Os alunos precisam ser extremamente inteligentes e cultos, e, para isto, cumprem uma jornada diária impressionante, que chega a dar pena nas pessoas "normais".
Ora, eles são crianças, mas não agem como se espera destas. Em uma vida de 70, 80 anos, eles já começam aos 10 uma rotina que resistirá por mais 5 ou 6 décadas. Aprendem, bem cedo, que não é preciso respeitar as etapas da vida – infância, adolescência, terceira idade, etc. O que importa é entrar rápido na universidade, ser bem sucedido em um emprego invejado por todos, ganhar bastante dinheiro, e, então, morrer; não, porém, antes de ensinar ao seu filho o valor de tudo isso na vida dele.
É possível que você pense “eles realmente estão exagerando”. Mas, por aqui, não é muito diferente. É claro que não chega nesse nível, afinal, nossas escolas não têm estrutura para esse tipo de ensino "ideal", elas sequer oferecem uma boa merenda no intervalo entre as aulas e, também, atividades culturais e extracurriculares inexistem nas nossas escolas, geralmente. Mas, não fosse a falta de condições típicas de um país pobre, implementaríamos tal sistema, creio. Aqui, escuto diariamente: estude, filho! Estude para ser alguém na vida! Entendo, por isso, “estude, filho, para ter dinheiro quando crescer”. É o nosso jeito de pressionar as nossas crianças. A infância não existe mais, é só uma pré-escola para a vida competitiva que o mundo impõe. E de meninas, já ouvi: "quando crescer, vou casar com um homem bem rico!" Sim, o homem não precisa ser honesto, educado, carinhoso. Precisa ser rico, apenas, e propiciar um bom casamento. Para muitos pais, é a versão feminina do ser alguém na vida. É o que ensinamos.
O que temos feito, afinal, com a educação dos nossos filhos? Antes, a diversão era jogar bola, soltar pipa. Agora, a diversão é ir às aulas de inglês logo aos 6 anos de idade, se possível antes. Tentam camuflar esse "treinamento" com salas coloridas, filmes e animações feitos em computadores, cadernos bonitinhos, personagens cativantes, professores ensaiados. Mas, ser criança está sendo muito chato. A vida da criança parece estar seguindo uma receita da qual ela não poderá se esquivar se desejar ser bem sucedida mais à frente. Já não é possível ser apenas criança, brincar sem compromisso, aprender naturalmente, aos poucos, devagar. É necessário ser um "adulto infantil", com inúmeras responsabilidades e desafios por enfrentar. É a Era das metas, para crianças, inclusive.
Eu, que passei pela infância como realmente uma infância deveria ser, não desejo que meu filho sinta essa pressão antes mesmo de entender aspectos básicos da vida. Há tantos conceitos e valores tão mais importantes a aprender nessa fase que ele realmente não poderia se preocupar naquele momento em como entrar na universidade X, ou na Y. Seja criança, meu filho, é somente o que você precisa fazer nesse momento. Eu entendo a ânsia dos pais pelo sucesso de suas crianças, o desejo para que eles tenham mais bem materiais do que eles próprios o têm, que andem mais bem vestidos, passeiem mais, que comprem o que quiserem, que não passem a privações que estes passaram, etc. Mas a vida não pode ser só isso, jamais. É mais importante ser adulto somente quando tiver idade para ser um adulto, e entender que a vida simples que deveriam ter as crianças de nosso tempo jamais será recuperada se agimos assim.
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Marcelo Maroldi.

Homo Consumens.

Há algum conforto em ouvir, de outros, os ecos das nossas próprias e longas angústias.
Embora as problemáticas políticas, económicas, sociais e ecológicas sejam inegavelmente de primeiríssima importância e exijam uma rápida resolução, sob pena de a humanidade inteira se afundar num caos irreversível e apocalíptico, o perigo da morte da cultura apresenta-se como uma ameaça menos espetacular e talvez menos destrutiva numa primeira instância, mas não menos mortífera para a continuidade da espécie humana e para a sua identidade profunda. Ao inquietarmo-nos pelo futuro dos nossos filhos, insistimos sobretudo na sua integridade física, segurança laboral, proteção social, bem-estar económico, sem nos preocuparmos tanto com o problema da desumanização e da idiotização por falta de cultura ou pela instauração de uma subcultura planetária e única.
[...]
O tema complica-se perante um discurso defensor da chamada cultura “popular”, em contraposição à cultura “elitista”. O debate não é de agora, mas pode ser necessário repensar estas noções num contexto cultural onde impera, acima de qualquer destes conceitos, o de cultura “de mercado” (que, ao privilegiar o valor mercantil do objecto cultural, não é verdadeira cultura, atuando sobre esta como agente de destruição).
[...]
O popular pode definir-se, antes de tudo, por ser acessível a um número cada vez maior de indivíduos, o que é permitido pelas tecnologias de reprodução, de difusão e de distribuição das obras. Se Mozart não foi “popular” na sua época, tal não resultou fundamentalmente da dificuldade da sua linguagem musical (que é bastante acessível) – ou seja, não resultou da forma nem do conteúdo, mas sim da necessidade de se fazer parte de uma certa elite social para ter acesso às suas obras. A democratização confunde-se aqui com popularização.
[...]
As coisas equacionam-se atualmente noutros termos, que se relacionam com a educação. (…) Se o “povo” prefere os livros de Stephen King aos de José Saramago, ou vai mais facilmente assistir a uma superprodução de Hollywood do que a um filme de Abbas Kiarostami, não é apenas por uma questão de publicidade – que obviamente tem um peso considerável – de acessibilidade ou do aliciante da “obra”, mas também, indo à origem da problemática, porque, desde crianças e adolescentes, são condicionados como futuros consumidores de determinados produtos, e habituados exclusivamente a um número restrito e prefixado de formas e conteúdos.
Por definição, ao consumidor deve limitar-se a capacidade crítica e de reflexão, preparando-o acima de tudo como receptor acéfalo de publicidade, incluindo nesta não apenas as mensagens destinadas a vender produtos, mas toda uma semântica e sintaxe literárias, cinematográficas e culturais em geral, que veiculam modelos de vida e de pensamento consensuais. Neste sentido, é legítimo estabelecer um nexo concreto entre “publicidade” e “cultura popular”.
Se se ensinassem as crianças, desde o princípio, a ler determinada literatura ou a ver derterminados filmes, poderia acontecer que Kafka ou Bergman se tornassem “populares”. Então por que não se faz? Porque, especialmente na literatura (incluindo o teatro e a poesia), e no cinema, cujos conteúdos costumam ter uma retórica com sentidos mais explícitos, as obras de qualidade têm a particularidade, definidora de toda a obra de arte autêntica, de convidar à reflexão individual, à não aceitação de regras estabelecidas, à liberdade de pensamento. Há-de convir-se que isto não propicia a ductilidade e a docilidade necessárias para converter o indivíduo num “bom” consumidor…
Algo que aparece como uma ideia progressista, mas que deve alarmar-nos, é a alfabetização por meio da imprensa escrita (...). Aprender a ler ou desenvolver o hábito da leitura através dos jornais pode parecer louvável, mas no fundo não é mais que uma preparação para que, em adultos, os indivíduos aceitem plenamente os conteúdos dos meios de comunicação, que são de índole cada vez mais propagandística e cada vez menos formadora e informadora.
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Miguel Machalski, Extinción de la cultura, em revista , Año 2, Número 14, Julio 2005 (tradução e sublinhados Sol)

A Incrível Religião do Individualismo.


Vivemos numa sociedade competitiva, de mercado, periférica ao capitalismo central, subdesenvolvida econômica e espiritualmente que só consegue encontrar "saídas" - raras, raríssimas - para indivíduos. E o indivíduo que consegue libertar-se, não raro desonestamente, de toda a opressão imposta, tende a reificá-la transformando-se em opressor também. E esta secular e perversa estrutura individualista se reproduz como um câncer, obliterando a razão, as emoções e os sentimentos das pessoas. Quer-se, acima de tudo, o "bem" para si próprio - seja lá o que for que isto signifique dentro de um contexto humano! Raramente se pensa ou se trabalha em prol da coletividade, e isso mesmo dentro do meio político, com situacionistas e oposicionistas acusando-se mutuamente de utilização privada do espaço público!
Como regra geral as pessoas buscam individualmente uma saída qualquer para a escravidão, a miséria, a loucura em que o século XX se enfiou. Em sua luta individual pela libertação, o homem se esquece de fatores fundamentais, como o fato de haver mais gente em igual situação e a ação coletiva tenderia a ser muito mais eficaz que a busca solitária.
Ou há liberdade para todos ou ela não existe de todo!
As poucas liberdades individuais conseguidas em raríssimas ocasiões são aquelas em que o "prego" passa a ser martelo mas a pancadaria continua. Que "liberdade" é essa, afinal?
Além desta loucura institucionalizada, há mais, talvez até em decorrência disto: clientelismo, analfabetismo, desemprego, frustrações, ignorância, prostituição, violência, miséria... Para onde se volte o olhar, vemos o mesmo quadro. Estamos devastando o mundo, agredimos a natureza e agredimos a nós mesmos ao agredirmos outras formas de expressão da natureza além da sociedade humana.
A sociedade industrial encontra-se aparatada para estraçalhar a Vida, que, apesar de tudo, segue subversivamente existindo, vivendo, amando. O tremendo e quiçá inconsciente suicídio coletivo que a sociedade humana está em vias de cometer e foge à percepção da maioria é de tal modo absurdo que mal dá para acreditar! Desta maneira, encontrar uma forma de inserção social no mundo que agrida o menos possível o que de mais inocente e nobre existe em cada um é dificílimo, mas fundamental.
O homem, já nos aponta José Carlos Mariátegui em O Homem e o Mito é um "animal metafísico": não se vive fecundamente sem uma concepção metafísica de vida. Estou convencido de que a forma de inserção no mundo que todos temos, como pulsão básica a reger nossas vidas, como uma alternativa ou probabilidade de saída da loucura é a religião em seu sentido mais sublime.
Há a religião cristã, a muçulmana, a judaica, a hindu, a budista... Há também a "Incrível Religião do Individualismo" que, hoje, conglomera o maior número de seguidores jamais imaginado como possível! Enfim, quando os homens defendem seus pontos de vista frente a outros homens, freqüentemente utilizam-se do artifício de "disfarçar" o nome da proposta para não assustar seu ouvinte. Com a proliferação das seitas pseudo-cristãs, do tipo templo é dinheiro, há aqueles que pregam coisas como: "Não é religião, é Cristo!" Os defensores da incrível religião individualista apresentam-se, de fato, em seus discursos anti-humanistas como "defensores da livre-iniciativa". No ritualismo demente da Incrível Religião do Individualismo, o burguês médio acende uma vela para si mesmo e outra para Mammon.
Aquele que, contra a natureza, correu sozinho até a liberdade, agrediu tanto a sua própria alma que hoje precisa de um "médico de almas". E a religião individualista apresenta orgulhosa seus novos sacerdotes: é o psicólogo, o psicanalista, o psiquiatra, psi... E o poder individual, o Führerprinzip da sociedade moderna encontra plenas justificativas aqui nestas novíssimas ciências. Ainda assim há o homem. O ser humano natural, sepultado debaixo de grossas camadas de hipocrisia com que se protege do seu próprio medo e do ódio dos demais. Por trás disso tudo não há mais que uma criança inocente, boa, alegre mas muito assustada. O homem natural busca satisfações naturais a seus anseios naturais.
A cultura, saber coletivo, é tão natural para o homem quanto sua herança genético-bilógica. O desvio da cultura (saber coletivo) "para dentro" é tão incrivelmente despropositado quanto as guerras. Já temos tantos problemas na domesticação da natureza, na humanização das forças naturais que o desvio das considerações intelectuais humanas na direção da destruição tecnológica de outros seres humanos é, evidentemente, um despropósito!
A criação ou o surgimento de uma cultura individualista é uma fantástica contradição, só crível porque existente. Pior: hegemônica!
Urge superar a violência da sincrética religião burguesa/individualista e criar um mito novo, fundado no Amor, na livre imaginação, nos sonhos e na Verdade. Isto só pode fazer sentido, claro, numa atuação coletiva em busca de uma nova forma de convivência social que liberte os seres humanos do medo e do ódio, fundando novas formas de relacionamento que abalarão até os fundamentos de uma sociedade assim absurda!
Na sociedade do futuro, fraternidade, liberdade, igualdade serão mais do que meras bandeiras levantadas por escassos idealistas ou mesmo por intelectuais que sequer conseguem sair da academia para a rua em busca de unir-se ao povo em suas justas reivindicações. Na sociedade do futuro, o bem-estar físico e mental de todos os seres humanos do planeta estará erguido à posição prática coletiva daquilo que se pode chamar, com licença da Teologia da Libertação, de Construção do Reino de Deus na Terra.
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Lázaro Curvêlo Chaves

A dignidade humana.

Num mundo tão turbulento como o nosso, onde a intolerância e o desrespeito se manifesta em todos os níveis, desde o familiar ao social e político, gerando focos de tensão e violência cada vez mais constantes, é mais que oportuno refletir sobre a questão da dignidade humana.Em que consiste ela?
Antes de tudo, em vermos no outro uma pessoa, isto é,um ser que merece tanto respeito quanto nós.O outro é uma pessoa, não uma "coisa". Se respeitamos uma individualidade, seus direitos e sentimentos, é porque o vemos como ser humano. Se, ao contrário, usamos o outro como instrumento para atingir nossos objetivos, como degrau que facilita nossa escalada e depois o descartamos, é porque consideramos uma "coisa".
Essa "coisificação" do ser humano é um fato corriqueiro no mundo de hoje.
As pessoas são consideradas ou desprezadas em função de fatores que nada têm a ver com sua condição humana. Podem ser prestigiadas ou marginalizadas por causa de seu sobrenome , sua classe social , cor de pele, condição econômica, formação intelectual ou escolar. Cidadãos dos países ricos e adiantados valem mais que cidadãos dos países pobres. Crianças de um lugar valem mais que as crianças de outro lugar. A morte de uns não tem a mesma importância que a morte de outros.
Uma das máximas mais antigas da humanidade condensou tudo isso numa simples frase: Não faças aos outros o que não queres que te façam. Esse é o princípio da convivência entre os seres humanos: trate o outro como gostaria de ser tratado. Aplica-se tanto a um casal de namorados quanto ao relacionamento entre nações. Oa sábios das mais antigas e diferentes civilizações chegaram a essa conclusão.Ela tem valor universal. E, no entanto, é cada vez menos praticada.
Há varios exemplos, hoje em dia, de atitudes que negam a dignidade humana. Uma delas é o preconceito racial. Considerar o outro inferior apenas por causa da cor da pele é exemplo de uma ignorância tão profunda, que parece inacreditável tal comportamento em pleno século 21.Essa atitude discriminatória não vê o outro como ser humano, mais sim como uma "coisa"; por isso, pode ser marginalizado ou espezinhado sem causar problemas de consciência.
A intolerância religiosa é outro elemento de desagregação da raça humana.Todas as religiões pregam a paz, a boa convivência e a caridade. Mas o fanatismo e a intolerância tomam conta dos indivíduos e os transformam em violentos e persiguidores daqueles que não comungam com eles a mesma crença. Nesse caso, o outro não é um ser humano com direitos, não é um igual, tornou-se uma "coisa" e pode ser eliminada, em nome de Deus...
O nacionalismo fanático é outro exemplo de uma atitude igualmente detestável, que em nada atribui para restaurar a dignidade humana. O nacionalismo estreito e cego que acha que seu país está sempre certo, que prega a morte pela pátria em qualquer circunstância. Um nacionalismo que justifica a violência contra o outro só porque ele é de outro país!
Precisamos educar para a paz, ainda que pareça utopia. Não podemos deixar que os bons sentimentos e os ideais sejam esmagados pelo quotidiano brutal e cinzento. Sejamos plantadores de esperanças. Se não vivermos tempo suficiente para ver a colheita, outros certamente continuarão nosso trabalho. Pois a tragédia do homem não é a morte, e sim o que morre dentro dele enquanto ainda está vivo.
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TUFANO, Douglas. Páginas abertas. Paulus, 2007; nº31

A fama e a influência da mídia na felicidade dos jovens.


A insatisfação dos jovens brasileiros com o próprio corpo e com a sua condição social é imensurável e demonstra ser um sentimento crescente. A busca por uma posição de destaque, de superioridade ou de onipotência é uma marca deste século, processo evolutivo se contrastarmos com a inoperância e conformismo dos jovens frente aos problemas sociais da atualidade. Essa nova filosofia de vida, de insatisfação pessoal permanente, como se algo quase que inalcançável faltasse, priorizando-se o “eu”, é utilizada como mecanismo eficiente pela TV brasileira para venda de seus produtos, resultando na formação de uma nova juventude, onde a prioridade é a conquista da fama, do sucesso e dinheiro, consequentemente de uma suposta felicidade ditada pela TV.
A influência dos programas de TV começa desde cedo, na infância, sequer espera, não se restringe à adolescência. Não é de se espantar que sejam realizadas inúmeras pesquisas por grupos de estudo, instituições internacionais, pela Igreja e missionários que tentam desvendar qual a influência dos programas televisivos no comportamento dos jovens, defendendo teses de que a TV passa uma mensagem oculta de incentivo ao sexo, violência, homossexualismo e, até mesmo, para os mais radicais, apologia ao “satanás”. Neste sentido, em outubro de 1998, a Organização das Nações Unidas (ONU) realizou uma pesquisa sobre os desenhos animados transmitidos pela televisão brasileira com o objetivo de medir a quantidade de violência passada para as crianças. O resultado foi assombroso, pois de acordo com a pesquisa, uma criança brasileira que assista a duas horas diárias de desenho animado estará exposta a 40 cenas de violência explícita, já em um mês, seriam 1.200 cenas e, num ano, pasmem, seriam 14.400 cenas de pura violência sendo produzidas dentro da própria sala de estar das nossas casas.
Dentro deste cenário o que mais nos tem estarrecido ao analisarmos o comportamento do jovem, não é apenas a influência direta da mídia no comportamento violento dos adolescentes ou a atividade sexual precoce, que começa desde a infância como acima exposto, mas sim a incansável busca por um lugar no mundo dos famosos, como se este fosse o passo final para a felicidade. Esta é a mensagem endereçada aos jovens atualmente, prova de que a presença da TV nas casas e nas escolas não é mais com fins informativos, mas sim se posta como fato social permanente e irreversível, sendo bem interpretada por Rosa Maria Bueno Fischer (2001, p.28), da seguinte maneira: “Imagem é tudo!” esse é o conselho que ouvimos todos os dias: é preciso não apenas ser, mas ‘parecer ser’; e se não pudermos ser, que nos esforcemos para parecer, e isto até pode bastar, porque cultivar a imagem (de si mesmo, de um produto, de uma idéia) mostra-se como algo tremendamente produtivo. Basta lembrar como ocorrem as campanhas políticas ou as performances públicas dos governantes, especialmente como um país como os Estados Unidos da América.”
A comunicação audiovisual não é mais um simples mecanismo informativo, não é mais um simples meio de comunicação onde se mostra o que aconteceu, mas sim é uma “instância da cultura que deseja oferecer muito mais que informação, lazer e entretenimento” (Rosa M. B. Fischer; 2001-p.18), mostra-se como instrumento de comunicação que está acima do bem e do mal, como se fosse imune a críticas. Este poder de fazer a verdade, onde se explora a desgraça de miseráveis que acreditam que a única verdade dos fatos e o único lugar onde a justiça pode ser feita estão em programas como Linha Direta (Rede Globo) ou Cidade Alerta (Rede Bandeirantes), lugares onde os apresentadores são os verdadeiros “justiceiros”, onde a incoerência e inconsistência das colocações são interpretadas como soluções dos problemas. Esta estratégia da TV de se mostrar inquestionável é extremamente eficaz, resulta numa falsa opinião pública, que na verdade acaba expressando um desejo, não mais da sociedade, mas sim do poder concentrado da mídia.
A insatisfação dos jovens com a própria imagem e com o que possuem leva-os a buscar mais, algo que tem sido oferecido pela mídia e só ela pode tornar realidade, por esta razão nós presenciamos o fenômeno da “cópia”, ou seja, não há mais originalidade no comportamento dos adolescentes, principalmente quando abordamos o “parecer ser”. Não enxergamos mais jovens brasileiros, mas sim jovens “americanos” com um ofuscado vínculo com nosso país, tamanha a influência norte-americana no comportamento dos jovens brasileiros, principalmente no modo de se vestir. Quando saímos pelas ruas nos deparamos com inúmeros candidatos a rapper, esta moda “bad-boy” americana está calcada na conquista da fama rápida, dinheiro, violência e sexo fácil, características que são almejadas pelos jovens brasileiros, fenômeno também presente no estilo dos carros, onde imagem é tudo, principalmente os rebaixados, com vidros fume e sons potentes, expressando um ar desafiador. Há um apelo a todos os recursos para ser famoso, se o objetivo não é alcançado, que ao menos pareça ser.
A busca constante pela fama, aliada às estratégias televisivas, faz-nos lembrar da frase do famoso pop norte-americano Andy Warhol, onde este disse: “In the future everybody will be world-famous for 15 minutes”, este futuro já chegou, as pessoas buscam minutos de fama na frente da telinha, sem se importar com o preço. O maior preço pago pelo telespectador que pretende ser famoso é a perda da intimidade, haja vista que não se pode mais diferenciar espaço público por espaço privado. Hoje, o mais eficiente caminho de se tornar público é estar na mídia, “estar lá como destaque, como grande astro, ou então como simples mortal que de alguma forma conheceu o sucesso, a ‘grandeza’, o ‘heroísmo’” (Rosa M. B. Fischer; 2001-p.35). Este apelo à quebra da intimidade é um recurso utilizado com muita freqüência em programas como de talk show, de forma exemplificativa podemos citar o programa do Jô (Rede Globo), percebe-se que não há um momento em que o apresentador não deixe de apelar a este recurso, seja questionando o auditório, o entrevistado ou até o público de casa com perguntas sobre sexo, homossexualismo ou fetiches, tudo gira em torno do desafio de desvendar o que acontece na intimidade das pessoas.
O enfraquecimento da personalidade, conforme fenômeno da “cópia” citado, onde ser famoso significa ser aceito pela mídia, custe o que custar, encontra-se presente no comportamento dos jovens brasileiros da atualidade, principalmente quando encaram isto como meio único de serem felizes e realizados. Tal forma de comportamento acaba “amputando” valores dos jovens que a sociedade espera que não pereçam frente a uma mídia manipuladora, principalmente quando são depositadas expectativas de mudança, que muitas vezes apenas podem ser concretizadas pelos jovens. Esta inoperância que tem se constatado, influencia negativamente todos os níveis da sociedade, por esta razão necessitamos do desenvolvimento de uma metodologia que objetive ensinar a criticar de forma objetiva o que se transmite pela televisão. Sobre este necessário comportamento crítico, Rosa M. B. Fischer (2001,p.45) narra palestra do escritor José Saramago: “(...)em sua Aula Magna na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, quando recebeu o título de Professor Honoris Causa, dia 26 de abril de 1999, referindo-se aos modos pelos quais social e historicamente vimos sendo “amputados”, impedidos de ser, propôs que nossa resistência talvez seja imaginar que cada um de nós tem, na verdade, ‘três metros de altura’, que podemos desejar mais, ir além; que, afinal há algo acima, além, dê-se a isso o nome de se quiser dar.”
Em resumo, podemos resistir às incursões mentais feitas pela TV, podemos criticar e manter nossa originalidade. Este comportamento pode ser trabalhado com os jovens, desde que comece nas séries inicias e seja um trabalho constante. É um ensinamento que também podemos concluir quando analisamos a obra de Paulo Freire, em que este preceitua acerca do inaceitável conformismo social, muito mais presente hoje nos jovens, por causa da priorização do “eu”, transmitida pela TV e também por estarmos vivendo um processo de transmissão de massa onde a mensagem principal é que do modo como estão as coisas não podemos mudar, devemos aceitar calados, oprimidos. Acerca do conformismo humano disserta Paulo Freire (2000, p.126): “(...) quanto mais os oprimidos vejam os opressores como imbatíveis, portadores de um poder insuperável, tanto menos acreditam em si mesmos. Foi sempre assim (...). Uma das tarefas (...) é procurar, por meio da compreensão crítica(...), ajudar o processo no qual a fraqueza dos oprimidos se vai tornando força capaz de transformar a força dos opressores em fraqueza. É uma esperança que nos move.”
Os recentes programas televisivos criados pelas emissoras de televisão brasileira incentivam a involução cultural e comportamental dos jovens, fortalecem o processo de opressão, onde a TV ao invés de informar o que é, passa a dizer como devem ser feitas as coisas. Ao mesmo tempo que se mostra um brasileiro que venceu na vida de forma honesta e com muitas dificuldades, nunca deixam de lembrar que ser modelo e jogador de futebol é mais fácil e financeiramente mais rentável. Esta influência está também fundamentada na constante priorização pela TV do corpo, sua perfeição e na necessidade de ser perfeito fisicamente e ter uma virilidade incontestável. Comportamento este encontrado em crianças que, mesmo aparentando certa inocência, não vislumbram outra coisa a não ser dinheiro e fama, moda e luxo, violência e sensualidade. Chegamos a um ponto em que o pudor feminino começa a ser substituído pelo frenético, incontrolável e ilimitado assédio masculino, que sonha com seios e bumbuns milimetricamente perfeitos. É o processo em que a TV dita o que deve ser assistido, oprimindo a personalidade e a liberdade de escolha dos telespectadores.
A fama resulta como uma espécie de motor que rege a mente dos jovens, vítimas de uma programação que mais se parece com o livro vermelho de Mão Zedong, vislumbrando criar um novo homem (no nosso caso famoso!) sem dar muitas opções. Esta falta de escolha pode ser facilmente constatada se levarmos em conta que a grande maioria dos lares brasileiros não tem internet e muito menos TV a cabo. Encontramo-nos adstritos a assistir programas como o que transforma simples brasileiros em famosos, sendo assim, transmitem a mensagem de que alcançaram a felicidade e o sucesso (Ex. Big Brother – Rede Globo), ou em assistir novelas que se estruturam numa produção semelhante à mexicana e que transformam a traição em exercício diário e a raiva de um ser por outro num toque sedutor (E.:Canavial de Paixões - SBT).
A música, como muitos programas de TV, também são utilizados pela mídia como ferramenta auxiliar para passar a mensagem de que a busca pela fama deve ser perene. É mais um meio de “castrar” a esperança de mudança dos jovens. Esta constatação, em que a música é um caminho doentio para atingir a fama, independente dos obstáculos, que não são mais a qualidade e dedicação, mas sim a sensualidade dos corpos, faz-nos lembrar de uma entrevista em que Gilberto Gil foi perguntado sobre sua opção de vida, se não tivesse seguido esta carreira de tanto sucesso, sendo assim, o que ele seria. Ele disse: “Eu teria ido estudar música”. Sorte nossa que podemos prestigiar tanto sucesso e qualidade, resultado de muita dedicação. Como Gilberto Gil, não esqueçamos de Caetano Veloso, que chegou a contratar compositores da música erudita para lhe dar aulas de composição, era um tempo em que não se falava em “É o Tchan”, em “Terra Samba” ou em “Os Sungas”. Um tempo em que o talento era prioridade e a fama era apenas um resultado concreto de dedicação.
Entre programas e grupos musicais também devemos nos atentar para o sensacionalismo influenciador de alguns fatos e personagens sobre os jovens, decisivos para que estes escolham seus ídolos e definam, muitas vezes, seus objetivos de vida. Entre muitos fatos e personalidades, devemos relembrar de como foi a morte de nosso “Zeus” (o deus dos deuses na Grécia antiga), referimo-nos a Roberto Marinho, que após sua morte nos fez entrar num profundo processo de reflexão. Num dos poucos momentos de “filosofia”, perguntava-nos se haveria pessoa mais perfeita que Roberto Marinho acreditava-se que deveriam substituir Jesus Cristo por aquele homem. Era tantos elogios, tanta modelação de um deus que vai deixar saudade, pois sua “perfeição” como pessoa fez com que o Congresso Nacional parasse e a Igreja se perguntasse se deveria ou não santificá-lo. Mesmo depois de tanto estardalhaço, continuamos achando que Chico Mendes foi muito mais significativo para nosso país.
Esse fenômeno, ou seja, esta presença inafastável da TV na escola e lares, não pode ser encarada, precipitadamente, somente de forma negativa, pois a TV tem se mostrado também um meio de comunicação eficiente na educação pública, em casos específicos e isolados. Podemos citar como exemplo a Rede Vida, TVE do Rio de Janeiro, Canal Futura, Globo News e TV Escola, programas que têm servido como orientadores de professores e instituições. Entretanto, não basta ser a TV simples orientadora, deve ser também objeto de uma análise crítica e objetiva por professores e alunos, interpretando-se o enfoque, a abrangência e o endereçamento dos programas, viabilizando um processo onde jovens possam escolher o que assistir de forma consciente, comportamento este já cristalizado em países Europeus. Ressalte-se que os benefícios da TV não são objetos deste trabalho, mas sim o fenômeno individualizado da influencia que a TV exerce na felicidade dos jovens, através da mensagem de que ser famoso é tudo. De qualquer forma, destacamos que, embora sendo um meio auxiliar importante de educação, as professoras e professores ainda não estão preparados para “dirigir-se à ‘criança telespectadora’, para comunicar-se com o adolescente nascido, criado e ‘alfabetizado’ pela TV” (Rosa M. B. Fischer; 2001-p 35).
Mesmo com tantos adolescentes candidatos ao estrelato, ainda estamos convencidos de que a fama não é a panacéia para os desafios da juventude brasileira, não é só o sucesso na mídia, tão bem trabalhada pelos produtores de TV, que traz felicidade, mas sim a consciência de definir o que é suficiente para desfrutar simples momentos da vida. Não nos referimos ao simples conformismo, mas sim à simplicidade, é fácil ser feliz, basta buscar o possível e não deixar ser influenciado ou alienado pelos sonhos dos outros. A TV incute uma mensagem de que o famoso ou bem sucedido é o bem feliz, bem bonito, bem dotado e bem afortunado, mas muitas vezes é bem mal informado, pois uma mensagem televisiva nem sempre expressa a realidade.
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Diego Pereira Machado - Acadêmico do 9º semestre de Direito do Instituto de Ensino Superior de Santo Ângelo (IESA).

Neoliberalismo – o bem-estar da economia às custas da desgraça dos seres humanos

Neoliberalismo é o nome genericamente adotado pela seita dos economistas ao processo de concentração de renda nas grandes empresas, notoriamente aquelas mais diretamente ligadas à especulação, seja através do sistema bancário, seja por parte dos jogadores da bolsa de valores ou outros membros desta mesma escória que controla o poder no mundo.
A expressão “liberalismo” aparece na definição miseravelmente para tornar o regime dogmático pregado e defendido pela seita dos economistas menos antipático.
As diferenças entre o liberalismo tradicional e o regime de extorsão de recursos dos trabalhadores para os já imensamente ricos – este batizado como “neoliberalismo” – são gritantes. O liberalismo fundamenta-se no “Laissez Faire” preconizado por Adam Smith; uma espécie de busca de “não intervenção” na economia. O capitalismo seria, segundo Adam Smith, basicamente darwiniano, ou seja, focado na sobrevivência do mais forte, sem interferência estatal sobre o sistema.
O neoliberalismo, para funcionar, precisa vitalmente ter controle sobre o Aparato Estatal e a opinião pública. Constantes injeções de recursos públicos – fruto de impostos, dinheiro do cidadão comum – em companhias privadas em dificuldade são colocadas como conditio sine qua non para o funcionamento apropriado do regime e a seita dos economistas tem o dever de apresentar tudo isto como “o melhor regime do mundo”, “o fim da história e das utopias” ou “a única alternativa viável”. A mídia, patrocinada pelas instituições financeiras, tem o dever de manter a opinião pública sob rígido controle e acreditando rigorosamente que todas as catástrofes que se abatem sobre os cidadãos são exclusivamente responsabilidade de cada um, por incompetência ou falta iniciativa, coisas assim. O controle social desta maneira – com uma seita dogmática travestida em ciência de um lado e a mídia de outro – atinge o pico de sua sofisticação.
Esforço histórico
Com o passar dos anos, a luta dos trabalhadores – aqueles que, de fato, produzem a Riqueza das Nações, foi sendo combatida de maneira cada vez mais sofisticada. Começou bem rude, com violência direta. Nos primórdios do capitalismo qualquer organização de trabalhadores, reivindicações ou greves eram tratadas como crimes – os poderosos sempre tiveram controle sobre o aparato judiciário, também de forma crescentemente sofisticada.
Quem lutasse pelos seus direitos, por melhores condições salariais ou de trabalho era sumariamente executado se em manifestações públicas, era encarcerado e “julgado” de acordo com a legislação elaborada pelos marionetes dos poderosos.
O insuportável da situação para a maioria e o próprio desentendimento entre os poderosos que, sempre norteados pela ganância e competitividade empurravam trabalhadores de um país contra outro em guerras fratricidas gerando um clima que resultou na eclosão de uma série de revoluções pelo mundo afora sendo a mais relevante para a história do capitalismo a Revolução Russa de 1917.
Uma vez implantado um regime que se auto proclamou “socialista” mas foi, desde sempre, uma forma de capitalismo estatal, houve avanços e recuos, erros e acertos, como tudo o mais no mundo humano. Somos obrigados a reconhecer que uma Nação atrasada e periférica como a Rússia do início do século XX não chegaria a seu final como uma superpotência se o regime não tivesse acertado em diversos pontos.
Colocaram-se os pingos nos “ii”, o que dificultou bastante a propaganda dos biliardários. Se no que se apelidou “democracia” o que há de fato é a ditadura de uma minoria de poderosos enriquecidos contra a maioria do povo trabalhador, na URSS o sistema era chamado de “ditadura do proletariado”. Uma ditadura da maioria sobre a minoria – como o poder estatal, para ser exercido, precisa ser concentrado, surgiu um pequeno grupo de burocratas que acabou se corrompendo, como se verá adiante.
O capitalismo estatal foi muito mais benéfico ao povo trabalhador que o capitalismo tradicional, em que o Estado existe, na prática, para simplificar a vida de poucas empresas de gente endinheirada. A Rússia saiu de uma situação em que se usavam arados de tração humana para a de segunda superpotência do mundo, a primeira a enviar uma missão espacial tripulada e única a manter uma estação orbital durante anos em volta de nosso planeta; os maiores salários jamais ultrapassavam 8 vezes os menores e a distribuição de produtos à venda, embora escassa devido aos bloqueios, era feita de maneira justa: os preços estavam todos sob controle do governo e o pãozinho – que acaba de sofrer novo aumento no Brasil/2007 – esteve congelado em 60 copeques (menos de 1 centavo de real) durante mais de 70 anos! Esta foi a única e grande diferença: o Estado subvencionava, principalmente, o bem-estar dos seres humanos ao contrário do lado capitalista tradicional, em que o Estado sempre se colocou em defesa dos poderosos, contra o povo trabalhador.
O colapso do regime capitalista estatal no Leste Europeu aconteceu por uma série de motivos, dentre os quais podemos ressaltar:
_ A corrida armamentista,que obrigou um regime capitalista estatal preocupado principalmente com o bem-estar de sua gente a gastar muito dinheiro com armamento – e se tratava de uma Nação que não tinha colônias a explorar, diferentemente dos EUA, por exemplo – para defender-se durante o processo conhecido como guerra “fria” mas que foi bem “quente” em diversos pontos do planeta, como a América Latina, o Sudeste Asiático, o Oriente Médio e a África.
_ O boicote dos EUA, suas colônias e outros países centrais do capitalismo à importação de produtos vitais aumentou as filas e a insatisfação popular – lembremo-nos de que os preços estavam congelados, sob controle, portanto, todos os bens eram colocados à disposição de todos ao mesmo preço. Como se conseguia pouco, havia filas e insatisfação, esvaziando as estantes dos mercados rapidamente. Hoje está muito mais simples: com o retrocesso ao estado semi-colonial da Rússia, o os preços dispararam, os boicotes cessaram, as prateleiras vivem cheias e há muito o que o cidadão russo médio nelas olhar, embora a aquisição esteja fora de seu alcance...
Com o retrocesso, houve também o retorno da mesma situação que se vislumbra em todos os países governados pelo neoliberalismo: desemprego, subemprego, concentração de rendas públicas em mãos privadas, tráfico de drogas, prostituição, mendicância...
_ Corrupção: seguramente este foi um fator importante na mudança do regime. Onde há controle Estatal, este se encontra em poucas mãos e a proximidade de muitos recursos acaba se transformando numa tentação, em que caem muitas pessoas de má-índole, existentes em qualquer latitude e longitude do Globo. No caso russo, uma burocracia estatal mantinha um nível de vida superior ao da maioria – o que estava em contradição direta com os próprios propósitos do regime – e, embora fosse um nível infinitamente inferior a este dos Mensalões e impostos polpudos malversados, foi suficiente para enfurecer o povo russo e deixá-lo ansioso por mudanças no regime.

Hoje estes mesmos corruptos ou seus sucessores seguem no comando nominal de uma Rússia que, a exemplo do resto do mundo, é governada segundo os preceitos do dogmatismo neoliberal e suas seitas defensoras, representadas pelos economistas e homens de mídia em geral.
Não havendo mais o menor contraponto, a rapina do capital avança mais.

Como sempre fazem os dominadores do mundo, desde os faraós do Egito Antigo, os Imperadores Romanos, os globalizadores Portugueses, Espanhóis, Ingleses e Nazistas; atualmente chegando ao Império Estadunidense as seitas representantes do neoliberalismo pregam, como sempre o fizeram, “este é o melhor dos regimes que o ser humano já conseguiu atingir” a “Inexistência de Alternativas” ou, com maior ênfase o repetido chavão de mais de 5.000 anos: chegamos ao “Fim da História e das Utopias”.
Nada indica que o discurso dos escribas e fariseus contemporâneos venha a lograr mais êxito que o de seus antecessores, ao contrário!
Mas de fato, a vida humana atingiu um de seus níveis mais baixos dentro do regime dominante do mundo contemporâneo. Segue-se cegamente a uma seita dogmática que recebe outros nomes, mas como na Idade Média, há expurgos e punições as mais diversas aos desviantes. Um mínimo de lucidez hoje traz tantos problemas quanto aqueles enfrentados por Galileu Galilei.
Direitos trabalhistas são sucessivamente suprimidos, mas não há sequer luta por melhorias: a eficiência do dogmatismo oriundo de uma aliança entre a seita dos economistas e a mídia silencia o movimento social, seja através de um egocentrismo patológico, como ocorre nos países centrais do capitalismo, onde se prega que “a culpa da desgraça que se abateu sobre você é exclusivamente sua”, seja colocando marionetes travestidos de “socialistas” nas colônias como Brasil e Venezuela, por exemplo. Se a maioria acredita que estes marionetes dos bancos representam o povo, perde-se o motivo para lutar.
A via eleitoral é apresentada como potencial solução e todos os candidatos apresentam as mesmas plataformas. O eleito é sempre aquele que consegue mais recursos financeiros com os bancos para cumprir seus ditames e convencer a maioria de que fará o oposto do que prometeu a seus comandantes. De certa forma a maioria tem plena consciência de que o processo eleitoral não mudará nada, mas a propaganda intensa obriga a todos que se conformem. Até mesmo a Justiça Eleitoral faz campanha contra o direito de não participar desta farsa chamada “eleição”. O voto é obrigatório e se, diante da urna, nos decidimos por um número inexistente (única forma de anular o voto) surgem mensagens de erro assustadoras e aterrorizantes, com vistas a bloquear o exercício deste direito democrático, o de não participar da farsa.O voto nulo é desestimulado pela mídia, pelos intelectuais venais de todos os matizes e mesmo na urna eletrônica – sofisticação brasileira, já que o resultado é amplamente conhecido antes mesmo do processo eleitoral, por que não agilizar o teatrinho que se faz? Nos países com um pouco mais democracia e menos analfabetismo político esse processo fraudulento, “urna eletrônica” é inaceitável.
Nossos impostos custeiam a lucratividade do Capital enquanto escolas, hospitais, estradas, portos, aeroportos, indústria e fazendas estão abandonadas de qualquer envio de apoio estatal na prática embora, naturalmente, seja constante nos discursos.
A sofisticação é aterrorizante!
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Lázaro Curvêlo Chaves

O Analfabeto Político


"O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, nem fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato, do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."
Nada é impossível de mudar "Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo, e examinai sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceites o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar."
Privatizado.
"Privatizam sua vida, seu trabalho, sua hora de amar, seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário.
E agora não contentes querem privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence.
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Bertold Brecht